O normal é que se diga que desistir é um acto cobarde e revestido de fraqueza. Eu descordo completamente até porque tudo depende do contexto e, às vezes, desistir é um acto nobre e revelador de grandeza de carácter. É difícil coabitar com a sujeira, sobretudo quando ela, a sujeira, é imutável e faz todos os esforços possíveis e impossíveis para permanecer lamacenta. Com efeito, insistir em coabitar com a sujeira acaba, em última análise, por sujar-nos. Nesse contexto, no de pretender continuar limpo e de consciência tranquila, desistir de limpar a sujeira que nos enjoa e partir para bem longe dela é um acto nobre. Se não podemos limpar a sujeira ao menos não nos devemos deixar sujar por ela. Isso foi o que aprendi dos meus pais e demais familiares.
É exactamente por prezar valores com dignidade, honra, verticalidade e honestidade que eu decidi abandonar o mundo do futebol. Esse mundo sujo onde tudo é imundo e quem manda nele pouco entende da essência das organizações e muito de ganhos pessoais e sabotagem ao esforço alheio. Eu prezo a honestidade, a honra, a verticalidade e a dignidade muito mais do que o futebol. Continuar a lutar, portanto, num mundo de farsantes e repleto de ódio pelo ideal de um puto que quis ser diferente da maioria teria de ser feito com sacanice, com intrujice e a burla. Eu não quero combater a burla com a burla. A intrujice com a sacanice ou sacanice com a intrujice. Seria igual aos demais. Estaria a andar nas pisadas dos outros e a construir uma mentira para os meus olhos e os demais.Eu decidi dizer basta para reencontrar os valores que foram dados desde o berço.Eu decidi deixar a merda com a merda. Eu decidi ser feliz e viver rodeado de pessoas honestas e de gente que trabalha humildemente sem pisar os calos dos outros. Eu escolhi outro caminho e pretendo trilhar, o caminho da verdade e da criatividade. Os clubes, no país, não precisam de websites, de tecnologia de informação, de canais televisivos e investimento. Os clubes vivem do faz de conta, amamentados pelas empresas públicas. Num futebol assim, eu prefiro não fazer de contas. Até porque fui ensinado que ou tenho de fazer bem ou simplesmente não faço. Fiquem com o vosso futebol, mas não se esqueçam que de tanto amarem a sujeira um dia julgaram que ela é a coisa mais normal. Aí deixarão de se lavar quando saírem à rua e as pessoas, finalmente, compreenderão que isto é tudo um mundinho do faz de conta…





